o problema é
muita gente imagina que morar sozinho deve ser uma maravilha - e realmente é, mas é uma daquelas experiências que deixam marcas terríveis pro resto da vida. ok, vamos chamar essas marcas apenas de manias.
eu adquiri várias ao longo desses seis anos, como, por exemplo, falar sozinho. agradeço sempre por morar num prédio onde nenhum vizinho escuta nada do que acontece nos outros apartamentos, caso contrário alguém já teria ligado prum sanatório avisando que o guri do 202 tá criando monólogos sozinho, “acho que é esquizofrenia - sempre suspeitei”, etc.
o problema é que eu sempre fui uma pessoa que falava demais e agora, como resultado da praga que todos os meus professores do ensino fundamental rogaram, eu tive que parar de falar à força. ”normal”, vocês dizem. agora sim eu devo ter aprendido a me conter.
pois eu digo que a coisa piorou. exemplo? alguém pergunta “como foi o teu dia?”
eu: aff normal, na real foi um pouco chato porque meu hortelã tava meio caído quando eu acordei e eu achei que ele tinha morrido, só que botei água e uma hora depois ele tava de pé de novo! isso foi bom, até. só que quando eu fui almoçar tava tudo cheio e tu sabe que eu não gosto de muita gente perto, me deu uma agonia, voltei pra casa e comi maçã. o ônibus também tava lotado, aquele fedor que nunca sei se é de cheetos bola ou de alguém que vomitou, como eu aguento isso todo dia? isso estraga meu dia. todo dia. acho que por isso que eu ando reclamando demais da minha vida. será que tô dando importância demais pra uma coisa tão pequena? porque se desconsiderar essas bobagens meu dia até foi bom. mentira, não foi, eu tô querendo amenizar meus problemas querendo criar um otimismo. ah, não sei. sei lá.
outra pessoa: foi bom.